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Quatro Reizinhos

Uma mãe obsessiva, um pai muito stressado e 4 filhotes. O mais velho hiperativo, o segundo com um feitio muito particular e dois bebes gemeos. Tanta cabeça debaixo do mesmo tecto não pode dar coisa boa.

Este rapaz vai dar-me tantas chatices

O meu Leonardo é uma criança muito especial. Têm um feitio  muito próprio, o pai diz que herdou da mãe, e por vezes não há paciência para lidar com ele. Desde pequeno que sabe bem o que quer e quando quer. Lembro-me de ele bater o pé porque não queria uma camisola ou uma determinada calça quando ainda não tinha dois anos. Foi também por esta altura que começou a escolher o que gostava de comer e pôs de parte tudo o resto. É a criança mais meiga e carinhosa mas têm que ser tudo há sua maneira. Quando digo tudo é mesmo tudo.

Ainda hoje de manhã reparei que tinha um saco de doces na mochila.

- Tiveste uma festa de anos querido?

- Sim derem-me esse saco mas está ai uma coisa que pode ser para o Guilherme. - disse enquanto procurava dentro do saco- Cá está os smarties podem ser para o Guilherme que eu não gosto. Nem sabes mãe vinham ai quatro coisas muito piores que os smarties mas eu livrei-me delas.

- Ai sim então o que fizeste?

- Dei duas ao Martim, duas à Leonor e assim já não tive que olhar para aquilo.

Eu fiquei sem saber o que era aquilo a que se referia mas não pude de deixar de pensar como é selectivo até nos doces. No entanto o que agora me preocupa mais são outros comportamentos que têm demonstrado. Uns dias antes das férias o pai esteve quinze minutos à espera que ele saísse da escola sem sucesso. Acabou por ter que o ir buscar à sala, pensando que ele estaria a acabar algum trabalho. Encontrou-o pronto a sair mas a prender o burro na secretária. O pai lá o trouxe para o carro e tentou saber o que se passava durante todo o percurso que fizeram, da escola até casa da avó e de casa da avó até à nossa casa.

Cheguei e deparei-me com um marido furioso porque o Leonardo não lhe explicava o que se passava. Lá andei eu com paninhos quentes a controlar uma situação que estava prestes a explodir. Depois fui tentar saber o que se passava mas ele não queria falar comigo. Descobri que tinha tido bolinha amarela e perguntei-lhe se era por isso que estava chateado.

- Sim fiquei chateado por a professora me ter dado bolinha amarela.

- Deves ter feito alguma coisa para teres uma bolinha dessa cor.

- Sim. - disse ele já a chorar.

- Podes contar-me que eu não vou ficar chateada.

- Um colega meu respondeu a uma pergunta mais depressa que eu.- foi contando entre soluços - Eu levantei-me e fui atirar o livro dele para o chão.

- Mas porque é que fizeste isso?

- Porque ele foi mais esperto que eu e eu quero ser o mais esperto de todos.

Eu fiquei ali sem saber bem o que dizer. O que dizemos a uma criança que quer ser a melhor a tudo. Não lhe disse que não podia ser a melhor mas expliquei-lhe que existem outras crianças muito espertas e que ele terá que aprender a viver com isso. Expliquei-lhe que se queira ser o melhor teria que se aplicar mais mas que eu não precisava que ele fosse o melhor. Disse-lhe que só me importava que tivesse uma notas boas para passar de ano e o resto não interessa. Ele continuou a dizer que queria ser o melhor de todos e que ficava chateado quando outro sabia mais que ele. Eu expliquei-lhe que ele têm quase menos um ano que os colegas e que isso também faz com que as coisas sejam mais difíceis para ele. Os colegas já estão a fazer os sete, alguns até já os têm e ele acabou de fazer os seis.Fiquei com receio de o termos colocado na escola cedo de mais mas ele já não suportava a pré-escola. Terminei a conversa exigindo que no dia seguinte pedisse desculpa ao colega e que esta situação não se voltasse a repetir.

No dia seguinte não atirou nenhum livro dos colegas ao chão mas atirou o dele próprio também por uma situação similar. A professora da natação começou a queixar-se que ele andava a amuar por não ser sempre o primeiro. Disse para a professora que ela não era justa com ele porque o deixava sempre para o fim. Foi mais uma vez repreendido em casa e eu comecei a contar os dias para as férias. Não quero desculpar este tipo de comportamentos porque não têm desculpa mas sei que estes costumam acontecer quando ele se sente cansado. Como não sabe lidar com a situação fica frustrado e acabamos com este tipo de comportamentos. Acabamos por ir de férias, divertimos-nos e descansámos. Teve uns dias para matar saudades da avó e dos irmãos. Voltamos à escola e os primeiros dias têm corrido bem, na natação também não há queixas.

A questão agora é durante quanto tempo? Sinceramente não sei como o ajudar nesta necessidade que ele têm de ser o primeiro, o melhor, o mais rápido. Vai ter que perceber que não podemos ser os melhores a tudo mas pressinto que até lá ainda nos vai dar muitas chatices.