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Quatro Reizinhos

Uma mãe obsessiva, um pai muito stressado e 4 filhotes. O mais velho hiperativo, o segundo com um feitio muito particular e dois bebes gemeos. Tanta cabeça debaixo do mesmo tecto não pode dar coisa boa.

O bicho da leitura

- Mãe a professora diz que existe um bicho nos livros.

- Um bicho nos livros?

- Sim. É um bicho tão pequeno que só se vê ao microscópio e pica as pessoas. 

- E depois? - perguntei sem saber ao certo o que iria sair dali

- Quando somos picados por esse bicho passamos a gostar muito de ler. Chama-se o bicho da leitura e acho que tu já foste picada por ele.

- Claro que sim meu filho. Agora já sei porque gosto de ler.

 

Os papa fruta

No início do ano escolar a professora mencionou que a câmara iria oferecer, novamente, fruta dois dias por semana.

É uma iniciativa do município para promover o consumo de fruta nas crianças e ajudar os produtores locais.

Uns dias após o início das aulas os rapazes mencionaram que tinham recebido pêras. Quando fui arrumar as mochilas estavam vazias. 

- Meninos onde está a fruta?

- Eu comi. 

- Eu também.

- Mas eu tinha enviado pêras.

- Comemos as duas.

Escusado será dizer que a fruta nunca chega cá a casa. Os rapazes comem tudo para não se estragar. 

Se deixarem ainda comem as dos colegas 😂

Não vai ser fácil

- Mãe hoje fui o primeiro a acabar a ficha que a professora deu!

- Santiago não interessa ser o primeiro. Tens é que prestar atenção e perceber o que é para fazer.

- Mas mãe o Salvador ainda não tinha começado e eu já estava quase no fim.

- Já disse que não é uma corrida.

- Eu não estava a correr mas estavam todos a ouvir a professora a explicar e eu comecei logo a fazer.

- Santiago não ouviste a explicação da professora? - perguntei zangada 

- Mãe aquilo era muito fácil. Olha tinha três pintas de um lado e três balões do outro. O que achas que era para fazer? - perguntou com ar de gozo - Claro que era para ligar os balões às três pintas e o resto era tudo igual. Não preciso que me expliquem estas coisas.

( suspiro) Acho que este vai dar chatices🙄

Temos que fechar os olhos

- Mãe hoje provei nozes mas não gostei. - afirmou o Santiago

- Eu gostei um pouco! - exclama o Salvador

- Quem é que vos deu nozes?

- A nossa colega perguntou se queriamos e nós aceitamos. O menino X também provou mas cuspiu logo na hora. 

- A vossa professora não viu de certeza. - afirmei recordando todas as regras do início do ano, entre elas não poderem partilhar comida ou materiais

- Ela já tinha saído.

Sorri a pensar em como as crianças arranjam sempre forma de ser crianças. A partilha e a proximidade estão entranhadas nelas, eu adoro que assim seja. 

Só quero proteger a infância deles

Não tenho sido muito honesta com os meus filhos. Nunca lhes menti mas, nestes últimos tempos, tenho omitido a verdade. 

As notícias são vistas quando eles estão entretidos no piso de cima. As conversas sobre o tema são tidas sorrateiramente. Quando entram em cena o tema é contornado e retomado um pouco mais tarde. 

Não sei se estamos a fazer bem ou mal. Não sei se deveríamos ser sinceros e explicar tudo o que se está a passar? Como explicar algo que nem nós adultos percebemos? Pensar que afinal não estamos tão avançados como pensávamos. Que o número de mortos não pára de subir. Um amontoado de caixões, pessoas impedidas de dizer um último adeus, pessoas impedidas de apoiar pessoas chegadas neste momento de dor.

Não me sinto preparada para expor os meus filhos a esta realidade. Não quero que se deitem à noite com medo. Nem que passem os dias preocupados. Não quero que esta pandemia lhes roube a infância.

Todos assistimos a criança que foram obrigadas a crescer cedo demais. Fome, guerra, órfãos... Todas elas não devidamente protegidas.

Não quero isso para os meus filhos. Posso estar a agir mal, mas neste momento não lhes quero transmitir medo. 

Por isso mantemos a calma e vivemos a situação com a maior normalidade possível. Sabem que existe uma doença e que não podemos sair de casa. Que não sabemos quando vamos voltar à escola ou a abraçar os avós. 

Não fazem perguntas o que nos ajuda a manter a informação sonegada. Neste momento estão mais concentrados em aproveitar ter a família reunida durante tanto tempo. 

 

O Leonardo é feliz?

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- Mãe sabes se o Leonardo é feliz?

- Porque perguntas isso Salvador.

- É que ele nunca tem um sorriso na cara. Parece triste.

- Filho não precisamos de estar a sorrir para ser feliz.

- Não?

- Leonardo chega aqui filho.

- Diz mãe.

- O teu irmão tem uma pergunta para te fazer.

- Leonardo és feliz?

- Sim sou.

- Então porque não tens um sorriso no rosto. 

- Ás vezes tenho, outras vezes não mas sou feliz. 

- Não sabia que podíamos ser felizes assim. 

Ando um pouco estupefacta com as conversas do Salvador nestes últimos dias😄

 

Algures numa viagem de carro...

O destino era uma festa de aniversário de um colega de escola. Os gémeos seguiam no banco de trás a conversar. O volume da conversa começou a subir. Eu tentava seguir o GPS para não me perder no meio dos montes e ao mesmo tempo perceber a conversa. 

Pelo que entendi estavam basicamente a dizer a mesma coisa mas de forma diferente. Nenhum entendia o que o outro explicava. 

- Mano não é nada assim!

-  É sim.

- NÃO!!!!

- SIIIM!!!

- NÃO, NÃO! 

- SIM. 

-Meninos já chega. 

- Um dia vamos ter que resolver estas nossas diferenças.- diz o Salvador para o irmão com o ar mais sério do mundo