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Quatro Reizinhos

Uma mãe obsessiva, um pai muito stressado e 4 filhotes. O mais velho hiperativo, o segundo com um feitio muito particular e dois bebes gemeos. Tanta cabeça debaixo do mesmo tecto não pode dar coisa boa.

O meu Leonardo está crescido

O marido reclama que eu favoreço um pouco o Leonardo. Na verdade ele não precisa de me alertar porque bem sei que raramente nego algo a este rapaz. Contudo o facto de gostar de o mimar não significa que tenha mais amor por ele do que por todos os meus outros filhos. Gosto de lhe fazer as vontades porque me sinto um pouco culpada.

O Leonardo é um rapaz calmo e solitário. É um jovem que sabe bem o que quer e como quer. Não preciso de andar atrás dele para fazer os trabalhos da escola. Entende perfeitamente a matéria e, quase, nunca precisa de ajuda.

É extremamente autónomo. Acorda de manhã, prepara o próprio pequeno-almoço e arruma a loiça na máquina após terminar. Se os gémeos se sentam na mesa ao mesmo tempo trata de lhes dar de comer. Segue directamente para as aulas e nas horas vagas fica deitado na cama a ler livros, uns atrás dos outros, ou senta-se no chão a brincar com o seu Lego. Quando à noite vou dizer aos rapazes que são horas de dormir o rapaz já está deitado e no segundo sono.

Tudo isto parece óptimo mas pesa na minha consciência. Sinto que os gémeos e o Guilherme absorvem toda a nossa atenção. Quando não estamos a tentar ajudar o mais velho nas matérias, estamos a desenvolver actividades com os pequenos. O Leo fica em auto gestão. Não que tenha menos importância que os irmãos mas como não pede a nossa atenção fica um pouco esquecido. Tenho receio que interprete como indiferença esta confiança que depositamos nele. 

Em parte por isso tento arranjar formas de o compensar. Que custa preparar um prato ou dois preferidos para tentar mostrar ao rapaz que está sempre nos nossos corações?

Os filhos nascem todos de nós mas são tão diferentes. Nós pais temos que nos adaptar a cada um deles e nem sempre é fácil. Vamos todos crescendo e aprendendo em conjunto nas esperança de fazer um bom trabalho.

Justamente quando pensava que era impossível o tempo passar mais rápido

Estamos à mais de dois meses em casa. Seria de esperar que o tempo se tivesse mais clemente. Fui ingénua em assim o crer.

Afinal aconteceu quase o oposto. Vejo agora os dias passarem a um ritmo ainda mais acelerado. Ele é preparar refeições, cuidar da casa, das roupas, prestar assistência nas aulas e trabalhos, dar atenção aos gémeos e garantir que continuam a adquirir conhecimentos. Banhos, compras, matrículas, consultas...

No meio disto tudo sinto que não tenho mãos suficientes para tudo. Conto os dias para o fim do ano escolar esperado que este me traga momentos para respirar. 

A vida continua

Continuamos em casa, os rapazes mais velhos com aulas por videoconferência, os pequenos com actividades preparadas por nós. O marido não está melhor, aguarda uma consulta num especialista para decidir o que fazer. 

Assim continuamos todos vinte e quatro, sobre vinte e quatro horas juntos e devo dizer que não tem sido nada mau. Acalmada a euforia de estarmos juntos em família ficou apenas uma tranquilidade no ar. Os rapazes estão mais calmos e menos nervosos. O medo do vírus está adormecido e eles estão felizes.

Tudo isso fez com que nós, os crescidos, conseguíssemos relaxar. Passamos a encarar este período como uma bênção. Proporcionou algo que sempre chorámos, tempo em família, tempo para nós.

Assim aqui vamos continuar nesta espécie de férias extra longas decididos a criar muitas boas memórias destes dias. 

Convivendo com o Salvador

O Salvador é um menino feliz. Está sempre de sorriso contagiante nos lábios. Adora fazer palhaçada só para nós fazer rir. É difícil manter uma cara séria ao pé dele.

Está também um fala barato, fala, fala e fala o dia todo. Por vezes, dou por mim a pedir um minuto de silêncio no meio da sua tagarelice. Os temas são os mais variados, relembra coisas passadas, questiona coisas que ouviu, mostra preocupação com este vírus e desejo de compreender muitas coisas. É um curioso por natureza e não tem medo de o mostrar.

Tem um coração grande, é carinhoso, compreensivo mas começa a fazer frente ao irmão. Um dos meus grandes receios era que o Santiago fosse dominante perante o irmão ( coisa que acontece a muitos gémeos), mas agora não me parece que isso vá acontecer. Talvez porque sempre os incentivamos a serem eles próprios, amigos um do outro mas lutarem pelo que querem. Explicamos que é normal terem gostos diferentes e que não se devem sentir obrigados a adorar algo só porque o outro gosta. No entanto também tentamos incutir que não podem saber que não gostam de algo sem tentar. O nosso lema é dar um oportunidade e depois decidir.

O Salvador é talvez o filho em que vi mais mudanças nos últimos tempos. Noto nele um crescimento interior que só se vê muito ao de perto. É uma sabedoria que fica camuflada pelo seu sentido de humor. Nos últimos dias tenho trabalhado com ele e percebo que não está menos desenvolvido que o irmão, como eu inicialmente pensava. O Santiago é óptimo com números enquanto que o Salvador prefere as letras. É muito satisfatório perceber que apesar de tão iguais são muito diferentes no interior. 

Também revelam gostos em comum nomeadamente ganhar à mãe. Quando me chamam para jogar com eles ao Uno já sei que trataram de tudo para me derrotar. Sabem fazer complô entre eles sem precisarem falar.

Mais do que isto tudo o Salvador é um aventureiro. Temos que estar sempre de olhos abertos porque está constantemente a fazer coisas perigosas. Desde estar aos pulos nas camas de cima dos beliches a trepar o gradeamento das escadas. Tudo fruto da sua imaginação fértil...

Também adora água, não perde uma oportunidade para se molhar. Quando vai para o quintal é necessário vigiar de perto caso contrário acaba encharcado. 

Não gosta de televisão, passa dias inteiros sem olhar para ela. Prefere brincar, ou exclamar bem alto que está aborrecido, a sentar-se à frente dela.

Tem uma fome de leão. Está sempre a pedir comer e come com uma satisfação que dá gosto. Adora tudo desde sopa, vegetais e peixe. Devora brócolos, salada e feijão. Apesar de tudo o que ingere está sempre magro, talvez porque nunca para quieto. 

 

Monstros que vivem entre nós

Quando ouvimos falar no desaparecimento da Valentina ficamos deveras preocupados. Não conhecíamos a menina, a família, nem tão pouco tínhamos conhecidos em comum. Apesar de sermos completos extranhos sofremos de preocupação. Voltamos a assistir às notícias, coisa que havíamos parado de fazer, na esperança de boas notícias. Demos por nós a parar na CM TV, canal que abomino, para perceber os desenvolvimentos. Em silêncio rezamos interiormente pelo seu regresso sã e salva. 

Há medidas que as horas passavam uma angústia crescia dentro de nós. O marido teve que fazer uma deslocação no sábado e a primeira coisa que perguntou ao chegar foi se já se sabia alguma coisa.

Todos nós preocupados com uma menina sem sonhar que todo o mal já havia sido feito. Após a descoberta do corpo e dos culpados ficou um choque. Bem sei que não é a primeira vez que um progenitor faz mal a um filho mas não me consigo habituar a esta realidade. 

Não consigo perceber como é possível um pai ou uma mãe fazer tal coisa. Para mim as crianças são o símbolo da inocência. São doces e puras, ainda não tocadas pelos pecados do mundo. Não consigo imaginar um ser humano a fazer mal a um destes seres. Mais ainda me custa a aceitar quando o ser é do nosso próprio sangue. 

Bem sei que por vezes os filhos nos tiram do sério mas nada justifica a morte. Como pais devemos garantir a segurança dos nossos filhos acima de tudo. 

Ainda não me consigo mentalizar. Estou cada vez mais desgostosa com esta sociedade que vêm perdendo a humildade ao longo do caminho. As pessoas são substituídas por monstros e estão mais perto do que pensamos.