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Quatro Reizinhos

Uma mãe obsessiva, um pai muito stressado e 4 filhotes. O mais velho hiperativo, o segundo com um feitio muito particular e dois bebes gemeos. Tanta cabeça debaixo do mesmo tecto não pode dar coisa boa.

Clausura

Estou fechada em casa desde sábado. Saí ontem, por breves momentos, para ir ao médico com os rapazes. Este apenas confirmou o meu diagnóstico de varicela.

Os próximos dias prometem. Os rapazes passam o dia a mostrar-me cada borbulha nova que descobrem. Não sossegam dois minutos e cada vez que um toca no outro oiço:

- Mano cuidado com a minha varicela. MÃE o mano tocou numa das minhas varicelas!!!!

Rezem por mim🤪

Desafio de escrita dos pássaros #9

O barulho das ondas penetrou no meu sonho e fez-me despertar. Tentei abrir os olhos mas eles não quiseram colaborar comigo. Senti a boca cheia de algo. Tentei de novo abrir os olhos e um deles reagiu. Vi um imenso amarelo desfocado. Pestanejei e consegui abrir os dois. Continuei a ver um imenso amarelo e algum azul ao fundo. Fui tomando consciência e percebi que estava numa espécie de praia. Tinha a cara quase enterrada na areia. Os grãos invadiram a minha língua e os dentes. Tentei não trincar a areia enquanto arranjava forças para me mexer. Onde raio estava eu?

 

A custo consegui sentar-me com a cabeça a latejar. Arrastei-me até ao mar e troquei a areia na boca pelo gosto do mar. Do sitio onde estava analisei a paisagem geral. Areia, mar e nada mais. Resolvi explorar em busca de ajuda e foi quando percebi que estava tal como quando vim ao mundo. Nem uma única peça de roupa e nada ao alcance da vista que me pudesse socorrer.

 

Era imperativo procurar ajuda mas como iria eu abordar alguém completamente nu. Outras questão imperativa era o facto de não me recordar de nada. Quando digo nada é mesmo nada. Não sabia o meu nome, onde morava, como tinha ido ali parar.

 

O mar trouxe algumas algas que apanhei para pelo menos me cobrir o sexo. Caminhei na areia molhada até perceber que nada mais existia além de mim. Que sorte a minha, acordar nu numa ilha deserta sem qualquer memória.

 

Deixei-me cair na areia. Sentia os raios solares a tostar a minha pele mas não existia onde me abrigar. Olhei para o céu e rezei por auxilio. O sol subiu e começou a descer e eu fiquei no mesmo lugar. A minha boca ansiava por água potável. O meu estomago roncava por comida.

 

Chegou a noite e eu batia o dente. Sentia um frio imenso, tão intenso que mais parecia que estava sentado numa pedra de gelo. Comecei a entrar em pânico. A minha respiração começou a ficar acelerada mas por mais que inspirasse nada chegava aos pulmões. Tentei acalmar mas em vez disso só consegui ficar com mais e mais falta de ar. Senti que ia perder os sentidos e rebolei na areia para tal não acontecer. Senti uma pontada nas costas.

 

- Ó homem que se passa contigo hoje que não deixar dormir ninguém.

 

Levantei-me estrambelhado e vi que afinal tudo não passara dum sonho.

Como começou o nosso dia #2

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Uma camisola gira e dois rapazes.

Pensei que ambos iriam querer a camisola e que iria ter chatices. Claro que acabei por ter chatices, mas não pelo motivo que idealizei. 

Acreditam que tive guerra porque nenhum quis vestir a camisola. Vou deixar o motivo tal como o ouvi.

- Essa camisola é para bebés de três anos. Já sou crescido e não quero camisolas com ursos totós!

Anda uma mãe a criar filhos para isto.

 

 

Não se ensina a amar

Quando percebi que iria ter quatro rapazes em casa o meu maior receio era que se dessem mal. Sei que a convivência entre irmãos nem sempre é fácil. Eu com quatro acreditei que não seria pera doce. Sei que podemos educar as crianças em muita coisa mas a capacidade de amar e criar empatia tem que nascer connosco. 

O tempo passou e tudo correu muito melhor do que eu pensava, neste campo. Não vou dizer que é tudo óptimo porque tal não é verdade. Os meus filhos discutem e bulham, apenas não com muita frequência.

Em geral são muito unidos e tive uma grande prova disso esta semana. O Leonardo tinha uma consulta logo de manhã à uma hora em era de todo impossível eu conseguir ir. Ou faltava tudo à escola para irmos com o Leonardo ao médico, impossível porque o Guilherme até tinha um teste, ou faltava à consulta. A alternativa foi deixar o rapaz a dormir em casa dos avós que depois o acompanharam ao hospital. Nessa noite a casa esteve mais triste. Os gémeos passaram o tempo todo a perguntar quando é que o irmão chegava. Foram dormir contrariados a chamar pelo elemento em falta. De manhã não queriam ir para a creche só diziam que tínhamos que ir buscar o Nardo ao médico.

O Guilherme passou os intervalos da escola a ligar para a avó para saber se estava tudo bem com o irmão, se já tinha ido à consulta, se o médico tinha dito que estava tudo bem. 

No fim do dia foi uma alegria quando se viram todos reunidos de volta. Eu assisti a tudo isto com uma lágrima no canto do olho. São momentos incapazes de se traduzir em palavras e só posso agradecer por fazer parte deles. 

Salvador o meu menino corajoso

Na semana passada tivemos consulta de alergologia. A doutora resolveu que estava na altura de fazer testes cutâneos. Eu, que estava acompanhanda de três crianças, tremi. Pensei que a coisa tinha tudo para correr mal mas não podia estar mais enganada.

Quando chegamos à porta do gabinete de enfermagem o Salvador subiu as mangas e entrou todo contente. 

- Tanta vontade meu querido. Não deve saber ao que vem.

- Vão fazer uns desenhos no meu braço.

- Vou fazer uns números, assim. Agora vou colocar umas gotinhas na tua pele. Depois temos que usar umas ferramentas mágica para ver se acontece magia.

A enfermeira quase não tinha espaço para trabalhar porque os irmãos estavam em cima do acontecimento a vigiar cada paço. 

Começou a hora das picadas e o rapaz não disse um aí. Não tremeu, não tentou fugir. 

- Salvador és o maior. Sabes que te portaste melhor que muitos adultos.

Por último recebeu um cronómetro o qual vigiou atentamente. Assim que este tocou correu, sem esperar por mim, para dentro do gabinete. 

Felizmente não acusou nenhuma alergia alimentar. 

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desafio de escrita dos pássaros #8

Catarina escrevo-te do nosso local. Olho para a levada e vejo-te a brincar nela. Vejo as casas de xisto e recordo do tempo que passavas a raspar a argamassa de entre as suas pedras. Que belos bolos de terra eram feitos com aquele pequeno truque.

Oiço a ribeira a correr e lá estás tu a nadar nela até seres incapaz de parar de bater o dente. Recordo as tuas pernas eternamente arranhadas pelas silvas a quem roubavas amoras silvestres.

É lá estás tu a fazer malabarismo nos telhados das casas, só para chegar aos ramos da figueira em buscas dos seus maravilhosos frutos.

Fecho os olhos e vejo uma criança cheia de vida e imensamente contente. Gostava que conseguisse manter essa alegria para sempre. Que o crescimento não te trouxesse uma sensação de diferença em relação aos outros. Que não metesses na cabeça que o peso era o culpado dessa diferença. Seres mais ou menos magra não te trará mais felicidade. Tenta aceitar o teu corpo, a tua mente. Aceita que és diferente. Não o vejas como uma maldição mas sim como uma bênção.

Aceita o teu ser e pode ser que passes ao lado daquela anorexia que tanto sofrimento te trouxe.

Não penses que sou infeliz, porque tal não podia estar mais longe da verdade. No entanto a doença, embora vencida, deixou marcas profundas em mim.

Uma vida sem essa bagagem é o melhor presente que te posso dar, ou talvez não. É o percurso que faz a pessoa e se o meu tivesse sido diferente está não seria eu.

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