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Quatro Reizinhos

Uma mãe obsessiva, um pai muito stressado e 4 filhotes. O mais velho hiperativo, o segundo com um feitio muito particular e dois bebes gemeos. Tanta cabeça debaixo do mesmo tecto não pode dar coisa boa.

Começou

Aparentemente apareceu um caso numa das instituições de ATL que vai buscar crianças à escola dos gémeos. A instituição fechou e as crianças que a frequentam estão em isolamento profilático. Algumas são da turma dos gémeos. Ontem chegaram a casa explicando que as aulas correram bem. Referiram que não existiu tanto barulho na sala e a professora não se zangou.

Eu não consigo deixar de ficar solidária com aquela professora. Se por um lado goza de mais paz e silêncio durante as aulas. Por outro tem que se dividir em duas para prestar apoio à sala e aos alunos que estão em casa. Terá que garantir que os alunos continuam a adquirir novos conhecimentos e ninguém fica para trás. 

Definitivamente esta pandemia trás desafios novos a cada dia que passa. 

O bicho da leitura

- Mãe a professora diz que existe um bicho nos livros.

- Um bicho nos livros?

- Sim. É um bicho tão pequeno que só se vê ao microscópio e pica as pessoas. 

- E depois? - perguntei sem saber ao certo o que iria sair dali

- Quando somos picados por esse bicho passamos a gostar muito de ler. Chama-se o bicho da leitura e acho que tu já foste picada por ele.

- Claro que sim meu filho. Agora já sei porque gosto de ler.

 

Nós

A nossa relação passou por muitos obstáculos. Uma adolescência. Uma anorexia. Um aborto. Quatro gravidezes. Um parto pré termo. Dois bebés prematuros. O dia a dia com quatro filhos. Uma mudança de casa. Alguns problemas monetário aqui e ali.

Vinte e dois anos a trabalhar em conjunto. Umas vezes melhores que as outras. Zangas pelo meio, porque também são precisas. 

Agora estamos de frente a um novo obstáculo. O meu sonho tornou-se o nosso sonho. Suponho que aconte a muitos casais. Eu idealizei a nossa casa na aldeia assim que lá entrei. Vi para além do pó de décadas. Muito para lá das madeiras podres e do chão que rangia.

Na minha cabeça ficaram os sonhos de como iria ficar quando pronta. Acreditei que o meu homem deixaria a meu cargo os planos mas estava enganada. Com o passar do tempo está mais entusiasmado que eu. Dou por ele a pesquisar tipos de chão, modelos de escadas, soluções diversas. É certo que já andamos às turras por opiniões diferentes. Cada um a argumentar porque a sua ideia é a melhor. Desenhos feitos em folhas de papel para tornar visível o seu ponto de vista.

Apesar destes desentendimentos fico feliz. Quando chegarmos ao fim, se chegarmos so fim, a casa não será como idealizei mas será nossa. Terá um pouco de mim e dele também o que tornará tudo mais especial, um lar em vez duma casa. 

Estamos reduzidos a isto

- Meninos hoje vão levar um rebuçado para comerem na escola.

- Mãe posso levar rebuçados para partilhar com os meus amigos?

- Por mim podes, mas será que é permitido na escola?

- Eu não quero levar para a minha directora de turma não se zangar por mim! - exclama o Leonardo

- Também acho melhor não levar. - diz o Salvador com uma expressão de tristeza - A professora diz que não podemos partilhar. Eu queria tanto dar aos meus amigos!

- Estou farto deste covid!!! - afirma o Santiago - Não podemos ir a casa das vizinhas. Não podemos ir ver a avó. Não vamos tirar fotografias na escola. Estou farto!

Pensamos que devido à tenra idade estão alheados das mudanças mas cada vez mais percebo que não. Podem não falar sobre isso diariamente mas estão a sofrer tanto ou mais que os adultos. Espero que em breve possamos recuperar todos estes momentos e afectos que nos estão a ser roubados. 

As despedidas

Todos as manhãs vou deixar os gémeos na escola.

- Adeus meninos tenham um bom dia.

- Adeus mãe. - respondem enquanto sobem a escada.

Durante a subida vão espreitando para trás a verificar se continuo ali. Entram na escola e seguem para a grade.

- Adeus mãe! - grita um

- Tem um bom dia. - diz o outro

Mandam beijinho e fazem gestos de abraços. Os pais em redor riem-se da meiguice deles. 

- Mãe adoro-te!

- Também te adoro. - respondo enquanto me dirijo ao carro

- Mãe eu adoro-te muito!

- Adoro-te filho! - respondo enquanto entro no carro.

Lá dentro tenho que abrir a janela porque eles continuam a gritar adeus, adoro-te e a mandar beijinhos. 

Coloco o carro a trabalhar e vou embora, pela janela aberta aceno adeus até os perder de vista. 

Antes de ontem o Salvador perguntou. 

- Quando tiver sete anos posso deixar de fazer tantos gestos de despedida.

- Meu filho não precisas ter sete anos. Se não quiseres dizer adeus na rede da escola não tens que o fazer. Eu gosto de ti e nada vai mudar isso.

- Acho que amanhã não vou ficar ali a dizer adeus.

- Então não fiques meu amor.

O dia seguinte veio e lá ficou ele na grade, com o irmão, a bradar despedidas até eu desaparecer.

É mais fácil dizer que fazer. 

Fazendo valer todos os momentos

Hoje o dia amanheceu frio mas ensolarado. Levei os mais velhos até a escola e segui para a dos gémeos.

Como de costume chegámos cedo mas em vez de ficarmos fechados no carro resolvemos aproveitar o sol. Fomos em busca dos patos.

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Voltamos ao carro com as extremidades geladas. Os gémeos queixaram-se que tinham as mãos congeladas mas mesmo assim querem voltar a passear. Tenho que me lembrar de preparar luvas porque temos que aproveitar todos os momentos de liberdade que podemos, com a devida segurança. 

Não somos imutáveis

Se existe uma coisa que a vida ma provou uma e outra vez é que não somos imutáveis. Podemos acreditar que sim mas se pensarmos bem veremos que a experiência da vida lima certas arestas em nós.

Não estou a afirmar que mudamos toda a nossa personalidade mas sim que vemos refinados certas características. 

Eu sinto muitas vezes as diferenças entre a Catarina de hoje e a do passado. Embora a idade tenha trazido sabedoria trouxe também vontade de viver em pleno. Nada de viver a vida como um robot que se limita a fazer as suas funções. 

Cansei e por isso resolvi experimentar coisas novas. Diferentes do habitual e para as quais não sei se tenho jeito. Se não resultar fico com a experiência que se vai refletir na pessoa que me estou a tornar. 

Por isso desejem sorte a esta grande criança sonhadora. Que esta nova atividade profissional me traga felicidade porque isso é meio caminho andado para tudo estar bem. 

Quando se juntam....

Vi os gémeos andarem pela casa aos cochichos. Segredavam coisas ao ouvido um do outro e depois trocavam olhares cúmplices.

Suspeitei que estavam a tramar alguma coisa. Segui pé ante pé atrás deles e... 

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Encontrei os rapazes a tentar chegar ao armário dos doces. Como a tentativa não resultou nada como trocar. 

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Estavam tão focados na missão que nem deram pela minha presença se não quando os repreendi. Fugiram a rir às gargalhadas, eu fiquei a fingir que estava zangada mas com imensa vontade de rir.