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Quatro Reizinhos

Uma mãe obsessiva, um pai muito stressado e 4 filhotes. O mais velho hiperativo, o segundo com um feitio muito particular e dois bebes gemeos. Tanta cabeça debaixo do mesmo tecto não pode dar coisa boa.

Rapaz a sair da casca

- Mãe eu quero muito um telemóvel.

- Salvador sabes que telemóveis só quando forem para a escola do Guilherme e do Leonardo.

- Eu vou pedir um telemóvel no meu aniversario e pronto!

- Pede à vontade mas não o vais receber.

- Então peço de novo e de novo até se fartarem de me ouvir.

- Pede à vontade que lá para os dez anos recebes.

- Então já não falta assim tanto tempo, só quatro anos.

😂

Depois do primeiro dia de aulas

Ainda não havia adormecido à muito quando ouvi um grito. Ensonada tentei perceber se era real ou parte de um sonho. Surgiu um novo grito desta vez acompanhado de um choro intenso. Corri para o quarto dos rapazes. Aproximei-me da cama do Santiago que se atirou para o meu pescoço. Apertou-me tanto que até fiquei sem ar. Sussurrei-lhe ao ouvido, mesmo que quisesse falar um pouco mais alto não tinha fôlego para tal, que tinha sido apenas um sonho mau. Beijei-lhe as faces molhadas enquanto lhe dizia que eu estava ali para ele. 

Por fim acalmou um pouco e aliviou a força do aperto. Deitei-me ao pé dele e questionei se queria contar o sonho. Disse-me que não se recordava e eu expliquei que é normal que isso aconteça. Acabou por adormecer agarrado a mim, quando caiu num sono profundo rebolou para o outro lado da cama e eu aproveitei para voltar ao meu quarto.

Dormi pouco tempo na minha cama porque ele voltou a chorar e chamar por mim. Entre soluços disse que não me queria perder. Eu tratei de o tranquilizar garantindo que nunca me iria perder. Mal ele sabe que o amor de mãe é de tal forma poderoso que não existe força no mundo suficiente para me afastar deles. Mesmo quando não estamos fisicamente juntos parte do meu espírito está com eles.

O resto da noite foi passada quase em claro com ele sempre agarrado a mim. Se inconscientemente se afastava logo acordava em sobressalto com as mãos à minha procura.

De manhã acordou ensonado mas com muita vontade de ir para a escola. Eu acenei um adeus pelas grades e fiquei a pensar que nunca ele havia tido um pesadelo. Será que o facto de o primeiro ter surgido no primeiro dia de aulas é pura coincidência?

 

Os quarenta

Meu amor celebras hoje os quarenta. Parece que ainda há pouco ansiávamos pelos vinte. Pela liberdade que nos traria. Pelo inicio de vida em comum. Os vinte chegaram e conseguimos quase tudo o que sonhamos. Um casamento, uma casa, filhos e um amor crescente. Demos por nós com olhos expectantes nos trinta. Sonhamos que nos trariam estabilidade e uma vida mais calma. A vinda dos gémeos e o ritmo das nossas profissões não nos permitiu tais coisas. Demos por nós a partir a cabeça com a troca de casa. A fazer malabarismos para lidar com doenças infantis, horários escolares, vida profissional e pessoal. Foram tempos desafiantes que apenas fizeram crescer a nossa união.

Percebemos que se trabalharmos em equipa seremos capazes de tudo. Isso claro desde que eu tenha sempre razão e faças exactamente o que te peço. Assim os trinta passaram a trinta e muitos, quase quarenta e hoje celebras esta nova etapa. Não sei bem como fazes mas chegas sempre primeiro que eu. Experimentas a coisa uns anos e vais mantendo-me a par. Eu não tenho outro remédio senão seguir-te porque por mais que tente nunca te consigo apanhar neste campo.

Espero que nesta nova faixa etária consigamos alcançar o que ficou por atingir. Uma vida mais calma, menos stress. Uma maior preocupação em viver e aproveitar cada momento. Bem sei que não o vamos conseguir já. Durante os próximos meses teremos muitas dores de cabeça com o restauro da nossa casinha na aldeia. No entanto já nos imagino lá,  naquele virá a ser o nosso cantinho especial, longe da azafama, da correria. Onde as horas duram mais tempo, os dias parecem semanas. Onde o tempo não nos foge por entre os dedos.

Parabéns meu querido amor. Que os quarenta te tragam tudo o que desejas e que vejas os cinquenta, os sessenta...os cem. De preferência comigo ao teu lado.

Assim se passaram seis meses

Acabei de chegar à conclusão que faz hoje seis meses que o país parou. É fácil de recordar a data porque na sexta-feira 13 de Março fizemos a escritura da nossa ruína no interior. Nesse dia o governo esteve reunido e ao fim da tarde ouvimos as noticias de que as escolas não voltariam a abrir na segunda seguinte. Seguiram-se dias de incerteza em que a maioria de nós se isolou em casa à espera que tudo acabasse rápido. Passaram seis meses e ainda não vemos uma resolução no horizonte. 

Aprendemos a conviver com este vírus. A tomar medidas de precaução. A ser cautelosos. Acompanhamos os números desta pandemia que sobem ou descem igual a um ioiô sabendo que a única coisa a fazer é esperar.

Percebi também que estou à seis meses sempre com os meus filhos. Vinte e quatro sobre vinte e quatro horas. Tivemos alguns meses de aulas online que quase nos tiraram o sono devido à falta de experiência de ambas as partes. Tivemos férias na praia, com um areal quase só para nós. Dias quentes e grandes que foram aproveitados ao máximo a tentar esquecer os problemas dum mundo. Miúdos com peles douradas a saber a sal e de sorrisos no rosto. Eles adoraram tanto que suplicaram para não sair de lá. A única coisa que os fez mudar de ideias foi a aldeia. E foi para lá que rumamos assim que possível.

Muito diferente da praia mas igualmente uma fonte de sorrisos. Banhos e banhos de rio. Uma variedade imensa de praias fluviais. Piqueniques à sombra de pinheiros entre mergulhos nas águas. Passeamos em aldeias, conhecemos paisagens. Visitamos parentes. Vimos águias, corvos e muitos outros tipos de pássaros. Vimos sapos, lesmas, cobras, lagartos, gafanhotos... Nadamos com cobras de água e sentimos os peixes do rio irem contra a nossa pele. 

Tivemos quedas...muitas quedas. Derramaram muitas lágrimas sobre joelhos esfolados mas apenas por breves segundos. Logo, logo já corriam desalmadamente. Quanto mais olhava para eles mais via neles o que sempre quis ver. Aquele espírito aventureiro de explorar um pouco mais. De experimentar saltar quatro degraus com sucesso e logo tentar com cinco. O levantar e tentar de novo após uma queda. O ignorar a dor e continuar a tentar.

Seis meses se passaram. Se no inicio me perguntassem se seria capaz teria respondido que não. Nunca pensei que o conseguisse sem uma pausa dos seus pedidos constantes. Jurei que ficaria louca ao fim de uns meses após ouvir dez mil vezes a palavra mãe. 

Afinal acabou por passar muito melhor do que seria de esperar. Não foi tudo maravilhoso, claro que não. Foram inúmeras vezes que lhes disse que não suportava mais ouvir chamarem por mãe, passaram a chamar-me Catarina, algumas vezes, para desenjoar. Gritei com eles muitas vezes. Principalmente quando a euforia era tal que simplesmente não ouviam nada. 

No entanto se me pedirem para fazer um balanço diria que oitenta porcento do tempo foi gratificante. Os rapazes tornaram-se mais próximos. Os mais velhos sempre preocupados em proteger os mais novos. Os pequenos sempre a querer imitar as pegadas dos maiores. 

Agora olhamos para o futuro com algum receio. Embora todos tenhamos vontade de abrir as assas e voar é difícil deixar a segurança do ninho. Eu gostaria de poder proteger sempre os meus filhos mas sei que não os posso manter debaixo das minhas assas para sempre. É tempo de os ajudar a enfrentar esta nova realidade que vivemos. É tempo de os ensinar a viver.

Resta dizer que tenho a certeza que o verão de 2020 será sempre recordado como o verão das nossas vidas

A desesperar

A cabeça à roda com este regresso às aulas. O Leo só vai ter aulas de manhã e o Gui da parte da tarde. Eu vou andar a fazer de taxi. Deixo um de manhã, à hora de almoço vou deixar o outro e recolher o primeiro. Ao fim do dia volto de novo a buscar o mais velho. Provavelmente vão fazer as refeições em casa porque me parece que com as regras vai ser impossível almoçar em tempo útil.

Vão ter que manter distâncias a entrar, no recreio, no bar, papelaria e nos corredores (só deus sabe como uma vez que são estreitos que sei lá).

Vão perder as aulas que a câmara oferecia. Terão que usar máscara e levar gel desinfectante próprio.

Etc, etc, etc...

Tudo isto e ainda não sei nada de como vão ser as coisas na escola dos gémeos😬

Feiras do livro

Este ano as edições da feira do livro do Porto e a de Lisboa coincidem uma com a outra. Apesar disso consegui organizar a agenda de forma a marcar presença em ambas.

Quem quiser um exemplar do meu livro autografado poderá escolher a localização que lhe for mais favorável :

Feira do livro do Porto - Dia 29 de agosto às 16 horas 

Feira do livro de Lisboa - dia 5 de Setembro às 16 horas.

Fico à vossa espera 😍

Dias na aldeia

Os dias na aldeia foram bons. O contacto com a natureza, a liberdade, a leveza do ar. Se nos primeiros dias tudo permanecia deserto nos dias seguintes notamos um aumento progressivo de população. Ainda assim nada preocupante. Em momento nenhum senti que estivéssemos em risco. Existem inúmeros locais onde tomar banho e como se não fossem suficientes as pessoas trataram de fazer pequenos diques improvisados aumentando assim a oferta. 

Os rapazes brincaram muito. Caíram, arranharam as pernas em degraus e nas silvas. Comeram amoras quentes directamente das silvas  Picaram as pernas nas urtigas. Encheram as meias de cardos e outras folhas secas que teimam em não sair. Colocaram os pés na levada e caminharam dentro dela, tal como eu fazia em miúda. Deram comer às cabras. Contaram as galinhas da prima. Tomaram banhos de rio, muitos banhos. Aprenderam a fazer saltar pedrinhas na água. Apanharam pinhas. Fizeram caminhadas. Comeram lanches improvisados onde calhava. Deram pão aos peixes de rio. Passaram horas a tentar apanhar alguns só com as mãos. Quando conseguiam tornavam a soltar o dito no rio. Adoraram ficar imóveis até sentir os pequenos peixes mordiscarem as peles mortas. Voltamos mas estamos a contar os dias para regressar. 

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De volta às origens

Decidida a aproveitar este verão ao máximo rumei à aldeia com os rapazes. Aqui a net é quase nula, a televisão não funciona. Não existem muitas crianças e a mala dos brinquedos ficou esquecida em casa. Tudo isto poderia traduzir-se em tédio mas nada disso. Os rapazes estão a adorar. Brincam apenas com a imaginação. Exploram todos os recantos da aldeia e o meu coração já parou quando os vi num telhado duma palhota. Cansam as pernas em caminhadas. Refrescam o corpo com banhos de rio. Assassinam as pernas e braços para apanhar amoras.

Os sorrisos são uma constante nos nossos rostos. 

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