Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Quatro Reizinhos

Uma mãe obsessiva, um pai muito stressado e 4 filhotes. O mais velho hiperativo, o segundo com um feitio muito particular e dois bebes gemeos. Tanta cabeça debaixo do mesmo tecto não pode dar coisa boa.

Uma sensação estranha

Os mais velhos foram passar uma semana fora com os avós e nós não somos os mesmos sem eles. O som da casa é diferente. Os risos são menores, os banhos mais rápidos, a pilha de roupa suja é menor e as camas são menos para fazer. Sinto falta do meu Guilherme que anda sempre a dar-me abraços e a dizer que me adora. Sinto falta da forma como demora uma eternidade a explicar a coisa mais simples. Sinto falta de olhar para ele e sentir que está quase da minha altura. De olhar para a forma como o seu corpo está a mudar.

Sinto falta do meu Leonardo e da sua voz histérica. Sinto falta das suas gargalhadas que se ouvem até ao fim da rua. Sinto falta de ouvir o ruído de fundo que faz o dia todo. Passo a vida a pedir-lhe pare de andar sempre a melodiar pela casa mas até desse hábito irritante sinto falta.

Dou por mim a fazer compras para seis, comer para seis e depois somos apenas quatro para o comer. Os pequenos também sentem a falta dos irmãos. Perguntam por eles o dia todo. Quando vão comer perguntam se os irmãos estão a comer. No banho perguntam se os manos estão a tomar banho. À noite perguntam se também estão a dormir.

Uma parte de mim agradece esta ausência. Estou cheia de trabalho, tenho trabalhado mais horas que o habitual. Já ouve dias em que o marido teve que sair para ir buscar os pequenos e tratar deles porque eu nem os conseguia ir buscar a tempo. Agradeço o facto de ter apenas dois para tratar o que torna tudo mais fácil mas sinto falta deles na mesma.

Agradeço também o facto de poderem ter este tipo de relação com os avós. Gosto do facto de poderem criar laços mais fortes. Lembro-me das férias que passei com os meus avós, do quanto me diverti e de como quero o mesmo para os meus filhos. Não quero de forma alguma ser uma mãe que não os deixa viver, que os mantém sempre debaixo das asas mas é difícil abdicar do controle. É tão difícil que não consegui deixar ir os mais novos apesar de os avós os querem levar a todos. Acabamos por chegar a um meio termo, foram dois ficaram dois. Pode ser que para o ano tenha coragem de os deixar ir a todos. Os pequenos já estarão mais crescidos e deve ser mais fácil tomar conta de todos. Se assim for a casa vai ficar ainda mais vazia.

Não vale a pena sofrer por antecedência. Por agora limito-me a sentir falta dos mais velhos e a contar os dias para os ter de volta em casa.

Sempre no nosso pensamento

Deixamos os miúdos na avó e o marido diz:

- Vamos mesmo ter um fim de semana só nosso?

- Vamos...mas não vai ser como antes dos rapazes.

- Não vai pois não? Já estamos a pensar neles.

E a verdade é essa. Divertimos-nos sim mas nunca deixamos de pensar e falar sobre eles. Comentamos como ficariam aborrecidos no museu, como iriam gostar de explorar a catedral, como iriam adorar o parque infantil e qual seria a reacção à capela dos ossos. 

Ser  pai ou mãe significa trazer os nosso filhos sempre no coração.

 

Para a filha que nunca conheci

O tempo que passamos juntas foi curto demais. Treze foram as semanas em que te transportei dentro de mim e mesmo assim deixaste uma marca profunda no meu coração. Não passa um dia em que não pense em ti e como poderia ser o nosso presente, se a vida tivesse seguido um rumo diferente. Embora pense em ti todos os dias por esta altura do ano custa mais. Começo a recordar a suspeita, os exames, a confirmação e a decisão que tivemos que tomar. Penso muitas vezes se foi a decisão correcta.  Sei o que os médicos me explicaram. Passei horas infindáveis a procurar algo que os contradissesse e não encontrei nada. A minha mente diz-me que a decisão só poderia ser esta mas o meu coração reclama que o teu caso poderia ser diferente.

Existe sempre a esperança que o nosso caso seja diferente ou seja um milagre e ai reside a minha dúvida. Será que fiz bem em desistir de ti?

Essa é uma pergunta que ficará sempre sem resposta. A ciência diz-me que foi a melhor opção. Estavas em sofrimento e ias acabar por morrer. Eu tinha dores que nunca tinha sentido e que depois me explicaram que era o meu corpo a combater a gravidez.

Acabei por aceder à interrupção médico assistida não por não gostar de ti mas sim por te amar demais. Não queria que sofresses.  Não queria ver-te nascer só para me morreres nos braços como sei que aconteceu a tantos outros. Sabia também que o meu apego por ti ia continuar a crescer enquanto estivesse dentro de mim embora soubesse que estavas condenada.

Cedi então para terminar o nosso sofrimento. Nunca penses que não te amei nem que desisti de ti. Amar é querer o melhor para a pessoa que amamos e o melhor para ti era partir. Hoje penso em ti com carinho e saudade. É engraçado como podemos sentir saudades de alguém que nunca vimos nem conhecemos mas a  verdade é que sinto saudades.

A tua passagem na nossa vida marcou-nos. Ensino-nos que não devemos dar nada por garantido e que devemos agradecer por tudo o que temos.  Hoje em dia não choro por ti porque sei estás comigo e que um dia ainda nos voltaremos a encontrar.